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Infidelidade calculada.

27th, Mar, 2010 | 08h46 pm

[Texto escrito em setembro de 2009]

Havia algo como uma afinidade eletrônica. Como se eu, halogênia, quisesse me ligar a ele, elemento nobre. Tão completo em sua aparência, sua camada de valência. Estávamos separados por uma membrana semipermeável. A solução dele estava concentrada e a minha, diluída, distraída. Foi preciso um catalisador para baixar a energia de ativação do sistema. Houve uma diminuição do volume e um aumento da pressão. Aproximação. Tensão. Sem que se pudesse prever qual seria a reação.
Meus orbitais oculares brilharam num arranjo cristalino. A substância de que ele era feito era altamente reativa e se decompunha em partículas tais quais fagulhas elétricas, excitando o meu sistema, mudando meus elétrons de camada. Foi à Q. Voltei em fótons. Eu poderia brilhar. Na teoria, o cálculo indicava que nossas massas e geometrias eram perfeitos para um equilíbrio dinâmico. Bem dinâmico, se dependesse da minha energia. Na movimentação da nossa mistura agitada, aumentou a superfície de contato e a temperatura subiu. Deslocou meu equilíbrio. E era visível que a reação direta era recíproca à reação inversa. Éramos uma mistura homogênea, eu-tética, ele-trônico e precisávamos de uma solução.
Vamos, reaja! Estou curiosa para saber do seu produto!
Mas os choques não foram efetivos e permanecemos no estado ativado, mas inertes. A demonstração discursiva do processo mostra que cada um de nós estava em compostos estáveis e precisávamos de muita energia para quebrar as ligações.
Mas sabe-se que há re(l)ações que demoram anos para acontecer. Não tenho pressa.
Cantamo-nos, não reagimos, decantei.

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Amargura.

27th, Mar, 2010 | 08h42 pm

[Texto escrito em 26 de novembro de 2009]


Eu tenho me sentido amarga. Incapaz de encarar meu próprio broken heart. Incapaz de amar, sentir saudades ou mesmo odiar meu heart breaker. Há um mês e um dia tomei um fora. Desde então, não parei pra pensar no que passou a significar aquilo que durante dois anos eu chamei de amor. Não sei dizer o que, exatamente, restou. Eu me ocupei de estudos, de livros, de outras pessoas - novas e, principalmente, velhas. Fui guardando os sentimentos nos meus cantos.

Procurei algo positivo pra dizer aqui. Algo que fosse otimista e que expusesse tudo de bom que eu já passei antes de cada broken heart. Mas eu só conseguia pensar em como um coração nunca pode ser totalmente costurado e que ele vai ficando tão duro, tão remendado e cheio de falhas que nem sofre mais. Racionalmente falando, eu sei que levei um fora, que fui usada e que fui feita de boba por uma pessoa de que eu gostava muito. Não derramei uma lágrima, não fiquei triste nem por um segundo. Não senti nada. E se senti, foi só vaidade, orgulho ferido, uma exacerbada auto-valorização. Tudo mentira.

Eu estou me sentindo muito amarga. Eu me finjo, me dissimulo e me engano. Se não estou descrevendo um quadro ou construindo ambiguidades, escrevo mentiras. De resto, sou sincera. Não faço nem falo mais do que sinto. Já que só consigo me sentir assim. Já nem dá pra fingir. Eu posso esquecer, se eu quiser. Começar tudo de novo. Mas nem quero, nem pretendo.

Eu não vou encarar tudo pela quarta vez. Fingir que não estou desencantada ou que não me sinto frustrada, fracassada e incapaz. Não vou fingir que acho que está tudo bem e que tudo bem tentar de novo porque é assim que a vida é. A vida não deve ser assim. Nada, nem ninguém, devia ter o poder de destruir uma coisa que era tão forte em mim. Essa coisa de eu ser romântica até os ossos. De eu viver e ser o romance da vez. De encantar os ouvidos das minhas amigas com o charme, a inteligência, a beleza e a fantasia das minhas idealizações. Por tudo que eu disse e escrevi, vivi romances idílios e monstruosos ao mesmo tempo. Por tudo que eu exagerei, por tudo que eu vi, por tudo que eu romaceei.

Eu não queria ter perdido isso. Não queria ter que me sentir assim agora e, principalmente, não queria ter que guardar essa mágoa pra tentar me "proteger".

Não estou me sentindo triste, não estou me fazendo de vítima. Tive muita culpa nessa história toda. Só estou constatando um fato: o de que eu estou me sentindo muito, muito amarga.

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10 formas de nudez.

20th, Feb, 2009 | 10h13 pm

10. Conhecer uma pessoa tão a fundo que tudo que é externo se torna transparente, invisível.
9. Demonstrar emoções, espontaneamente. Abrir sua alma num sorriso, num choro desesperado, num grito, num susto.
8. Escrever, compor, pintar, esculpir, cantar, tocar, dançar...
7. Tomar banho. Lavar cada parte do seu próprio corpo. Ter seu jeito de ensaboar, esfregar e condicionar os cabelos, enxaguar e se secar.
6. Permitir-se ler, ouvir música, observar, admirar, tocar... Sem julgamentos.
5. Escolher uma roupa para vestir, uma maquiagem, um sapato. Imaginar-se. Versatilidade é nudez.
4. Sexo por sexo. Contornos, protuberâncias, partes, tato, contato.
4. Sexo olhando no olho. Mais fundo que o próprio olhar.
3. A propósito, olhar, encarar, secar, piscar, focar, fechar os olhos, desviar os olhos, olhar de viés.
2. Sem se enganar: sentir. Saber o que se sente. Sentir o que se sabe.
1. Postar.

 

 

 


Ficar nu é viver.
Gosto de todas essas formas de viver.
Pois sim.
 

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19/02/08

19th, Oct, 2008 | 11h16 pm

Vou te contar que de vez em quando eu me surpreendo comigo mesma.
Meu pai me ensinou uma vez que quem só quem tem idéia fixa é louco. E eu, que me considero uma pessoa com bem pouca louura correndo nas veias, sempre tive minhas 'teorias'. Apenas teorias. Nunca as deixei se transformarem em idéias fixas justamente pra eu mudar de opinião quando necessário.
A mais fixa das minhas idéias não-fixas eu adquiri precisamente no dia 24 de junho do ano passado. Ou pelo menos a mais empiricamente comprovada das minhas idéias não-fixas. E só hoje eu a coloquei em xeque. E quando você começa a duvidar do seu próprio pensamento é porque a coisa ta feia e você absurdamente fora de controle.
Uma vez uma pessoa me perguntou se fazendo yoga ela seria tão auto controlada quando eu. No momento, eu diria que nem o mais forte dos calmantes me poria de volta nos eixos O.o.
E se um dia eu parafraseei a Lily Allen dizendo: 'no, i's not gonna happen, not in a million years'. Hoje eu empresto a frase da Alanis Morissete: 'But you, you're not allowed, you're uninvited, an unfortunate slight'.

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19th, Oct, 2008 | 12h59 am

"Nessa noite, [...], percebo que nossas vidas começam a se desenrolar numa deliciosa mistura de conversas, toques, cochilos, e um simples existir juntos num silêncio caloroso e fácil. Como as férias perfeitas na praia, onde o não fazer nada acontece de uma forma tão feliz que quando você volta pra casa e os amigos perguntam como foi a viagem você não consegue exatamente lembrar o que fez para preencher tantas horas. Essa é a sensação de estar com ele." (GIFFIN, 2004)

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Da série: O que você pensou que fosse?

19th, Oct, 2008 | 12h55 am

Eu nunca pensei que algo assim fosse acontecer comigo.
Eu tentei evitar. Fingi que não era necessário. Mas não houve como. Aconteceu.
E agora eu não consigo comer. Eu mal posso falar. Dói sorrir.
Ta estampado no meu rosto tudo que aconteceu. Eu tento esconder, mas não dá. Não dá.
Eu estou diferente. Eu me sinto diferente e eu sei que nunca mais vou ser a mesma depois disso.
E sei que vou ter que arrancar uma parte de mim, ainda. Vai doer muito. Sinto isso. Basta um telefonema e um encontro.
Só tenho certeza de que o que quer que eu faça, não mudará o que está acontecendo. É algo com que eu tenho que conviver por seis meses, um ano, dois, quem sabe?

~Isso é uma porcaria chamada aparelho ortodôntico e posterior remoção dos terceiros molares.

E você pensou que fosse o quê?

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Papéis.

18th, Aug, 2008 | 10h24 pm

  Estava mexendo numa certa gaveta minha hoje e encontrei muitos papéis aleatórios que, na hora em que guardei, por alguma razão pareciam importantes. Estavam guardados há até seis anos: cadernos em que eu escrevi com 11 ou 12 anos. Juro que é um caderno com planos, idéias e anseios que eu tenho ainda hoje. Engraçado pensar que eu tenho exatamente o mesmo sonho de quando estava na sexta série. Isso só pode significar que eu sou muito lerda para perseguir meus objetivos, ou ele é mesmo muito difícil de conseguir. Achei, também, uma carta datada de maio de 2005. Completa, com cabeçalho e assinatura. Guardada, esquecida e nunca mandada. Achei bilhetes de conversas no eio da aula de geografia na oitava série. Achei desenhos de uma casinha do meio das montanhas, da sétima. Um trabalho de ensino religioso que me valeu meio ponto a mais na média no primeiro ano do ensino médio. O pacote de um presente importante pra mim. Rascunhos da minha monografia. Rascunhos de inúmeros começos/meios/fins de livros. Jogos de stop, marcações de truco e de Scotland Yard da praia. Encontrei recadinhos de amigas em capas de caderno, em recortes de papel e até num calendariozinho. Encontrei minha vontade de ser jornalista confessada num diário secreto. Encotrei um diário abandonado em março.   Encontrei duas alianças e dois amores abandonados. Meias-entradas de cinema. Um cd escondido. Letras de músicas e poemas que nunca mais viram a luz desde que foram escritos. Encontrei medos de adolescente em garota que se achava adulta. E medos muito adultos em adolescente. Planos muito adultos e responsabilidades equiparáveis à de uma garota mais velha. Vi a garota que nunca acreditou em amor eterno, tentar, não conseguir, e registrar tal tese num rabisco, numa agenda. Vi anotações de uma certa série de livros que suscitou muitas discussões. Provas antigas com notas altas e baixas. Recortes de revistas. Listas de músicas para gravar um 'cd de áudio'. Crachás de eventos, calendários, adesivos...
  Na verdade, acho que encontrei seis anos de Fernanda.
  Na verdade, ahco que simplesmente cheguei à conclusão de que amo muito papel. Sejam escrito, rasurados, desenhados, rabiscados, rascunhados, impressos, dou muito valor a eles.

  Só queria comentar mesmo. Porque talvez isso explique a minha ausência aqui no blog nos último dias. Andava tão envolvida com a minha paixão/compromisso com papel, idéias, xerox, livros, provas e estudos que acabei deixando o mundo digital meio de lado...


  Fazer o que se sou do século passado?!

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Quem não sabe desenhar... Resenha! [1]

4th, Aug, 2008 | 10h38 pm

Ele era a lenda, o filme não.

  Se a extinção da humanidade fosse um tema inédito no cinema, o filme seria remotamente razoável. "Eu sou a lenda" não traz nada de novo e o que tem de velho deixa muito a desejar. Mesmo com a brilhante (e musculosa, diga-se de passagem) atuação de Will Smith, o roteiro retoma a história batida do vírus que transforma seres humanos em zumbis servidores do mal ("Caçadores das Trevas", no filme) comedores de carne humana não-infectada.
  Na cidade de Nova York, no ano de 2023, pesquisas (mal-sucedidas, mesmo que antes bem intencionadas) em um vírus conhecido fazem com que ele se espalhe de maneira irreversível pelo mundo. Robert Neville (Smith), quando a cidade está sendo posta em quarentena, despacha sua família num helicóptero, mas fica para ajudar na busca pela cura. O filme começa três anos depois de todos os seres humanos, cães e ratos (exceto ele e sua cadela, Sam) terem sido infectados, o que na verdade é assaz estranho, já que logo no início do filme aparecem antílopes e leões saltitando saudáveus pela destruída Nova York completamente saudáveis. Robert Neville passa seus dias de solidão procurando comida nas casas evacuadas, evitando locais escuros (onde ficam os caçadores das trevas, enquanto há luz) usando carros de porte variável e se metendo em ''confusões e encrencas'' (como diria o locutor das vinhetas da Sessão da Tarde) com sua fiel companheira Sam. Faz ainda exercícios e pesquisa a cura para a agressividade, a aversão à luz, a associabilidade, a coloração esverdeada da cutis e a feiúra dos vilões. Uma apropriação em partes aproximadamente iguais de "Náufrago" e "Resident Evil", sem o charme e o drama daquele e sem a equipe de maquiagem desse,
  O filme tem incontáveis furos do tipo haver um milharal no meio da cidade; mais a já citada inexplicávcel imunidade ao vírus de alguns animais em detrimento de outros; uma cena bizarra em que o protagonista passa metade do dia suspenso de cabeça para baixo, desacordado, e depois consegue vergar o corpo e cortar a corta que o prendia pelo tornozelo; o fato de haver energia elétrica à vontade depois de três anos de desolação; ele gostar tanto da música "Three Little Birds".
  Mais para o fim, a simpática atriz brasileira Alice Braga surge do nada para salvá-lo do rei dos zumbizões do mal. O filme podia melhorar, mas não. Os últimos quinze minutos antes dos créditos continuam no formato "tensão, tensão máxima, susto, relaxamento, tensão, tensão máxima, susto, relaxamento", para acabar numa decepção do tamanho do firmamento e uma sensação de uma hora e meia de pura perda de tempo.

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A mais doce mentira.

28th, Jul, 2008 | 08h26 pm

  Não há no mundo quem não odeie mentiras. Minto. Digo melhor. Não há no mundo quem não odeie ser enganado, logrado, ludibriado, iludido, tapeado, sacaneado, passado pra trás, feito de bobo. Ninguém gosta de descobrir de uma hora para outra que algo em que se acreditava não existe no mundo real; descobrir, de alguma forma, que uma pessoa usou minutos (e às vezes muito mais que apenas isso) de sua existência para te fazer crer em uma fantasia. O irreal pode ser perverso às vezes. Pode realmente ser usado para o mal. Agora faço uma ressalva para destacar que há quem ganhe a vida contando mentiras de que as pessoas gostam. Aquelas velhas e doces mentiras dos filmes, dos livros, dos seriados, das novelas, dos quadrinhos. Mentiras que seis mil anos de escrita criaram e a gente aceita normalmente, sem nem pensar que aquele mundo paralelo tem muito pouco em comum com a nossa vida aqui. O típico conforto alienado de gter consciência da ficção e mesmo assim torcer pelo mocinho e pelo triunfo do bem...
  E algumas mentiras são realmente tão doces que não me surpreende acreditar numa assim, eu que sou a pessoa mais apaixonada por alúcar que eu conheço.
  Não há no mundo dos meus conhecidos e caros leitores do meu fotolog quem não tenha me ouvido resmungar ou me lido escrever que eu não acredito em amor. Minto. Digo melhor. Não acredito em amor romântico. Mas a coisa é que de vez em quando a gente tem que mentir e acreditar na mentira, porque sente algo que simplesmente não pode ter outro nome senão amor.

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Metalíngüe.

28th, Jul, 2008 | 08h19 pm

  

  Dias atrás, acordei com a pulga atrás da orelha querendo saber como raios se separa em sílabas a palavra aguentar. Seria a-guen-tar? Ou a-gu-en-tar? Aquilo estava corroendo minha alma, então eu resolvi pegar o dicionário e fiz uma descoberta fora de sério: não existe a palavra aguentar. Há, sim, agÜentar. O que me levou a procurar a palavra 'trema'. Eis a definição: 'Sinal ortográfico (¨) usado sobre a vogal u quando precedida por q ou g e seguida por e ou i para que seja pronunciada atonamente, sem formar dígrafo.'
  O trema já não existe no português de Portugal. Em buscar de uma 'unificação' querem fazer cair (se é que já não fizeram) esse simpático grafo. Agora, se é pra cair, que caia sem fazer estragos. A função do trema é fonética, indica como se pronuncia uma palavra. Se é pra cair, que se formem os benditos dígrafos. Que nossos filhos pronunciem seqüestro, não sekestro; neqüik, não neskik.

  Eqüitativo. Eqüino. Eqüidistante. Liqüidificador. Nesqüik. Ungüento. Aqüicultura. Barigüi. Freqüentemente. Lingüiça. Agüentar. Metalíngüístico. Sagüi. Seqüestro. Aqüífero. Antigüidade. Ambigüidade.

  Em defesa do trema. Pra sempre!

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